14 de outubro de 2004

MISSÃO: BRUCELOSE EM PORTUGAL


Solicita-se informação pertinente sobre os resultados da missão da UE de avaliação do programa de erradicação da brucelose dos pequenos ruminantes em Portugal.Posted by Hello

A AMBIÇÃO E A ÉTICA

Acordo de Bolonha à parte, e à parte muitos dos disparates, generalizações e/ou simplificações a que se está a reduzir esse acordo (a isto voltaremos mais tarde), parece inquestionável ser competência da Universidade lidar com a ambição e a ética inculcada aos discentes, sendo esta preocupação particularmente sentida para os cursos de Medicina Veterinária.

Não existem indicadores estatísticos que permitam relacionar a prática não ética com a origem universitária do profissional que a pratica, nem tão pouco a relação de causa-efeito com a ambição instilada a esses licenciados (futuros profissionais), formados nas Escolas de Medicina Veterinária, mas seria de facto interessante ter a percepção do eventual denominador universitário comum de incumprimento ético e deontológico.
Tal interesse é suscitado pela convicção de que à Universidade não caberá apenas o papel de transmitir conhecimentos de natureza mais ou menos científica e de oferecer metodologias de aplicação prática desses conhecimentos, mas sobretudo de saber enquadrar esse “sistema de ensino-aprendizagem” num adequado sistema de referência que tenha em conta a ambição e a ética.

Aquela mistura de vontade, desejo e atracção que os docentes universitários transmitem ao futuro profissional, particularmente nas situações práticas que de alguma forma “simulam” o futuro dia-a-dia desses profissionais: planeamento produtivo de uma exploração pecuária, actos clínicos, uma cirurgia, concepção e realização de Inquéritos Epidemiológicos ou concretização de um diagnóstico, avaliação do lay out de uma indústria alimentar, etc. etc., poderá, em muitas circunstâncias, sobrepor-se ao enquadramento ético desse exercício, de que as dificuldades de emprego são “apenas” enorme catalizador.
Seria de esperar que a Universidade clarificasse os discentes sobre como se articulam a ambição e a ética, não permitindo que subsistissem quaisquer dúvidas sobre o plano ocupado por cada um dos conceitos, como é habitual notar-se: que a ambição termina onde a ética começa, como se se tratassem de duas questões não miscíveis.

A ética, encarada como um conjunto de “regras” que regulam a conduta, neste caso dos Médicos Veterinários e que em termos do colectivo se plasmam no Código Deontológico, não se opõem ou castram a ambição, como muitos “empresários da profissão” julgam ou aprenderam na Universidade.
A atitude platónica de renunciar aos prazeres e à riqueza a favor da dedicação à virtude, tendo em vista a conquista da felicidade, não me parece aplicar-se a esta circunstância ou seja, não se trata de escolher entre a ambição e a ética, como alguns doutos fazedores de licenciados parecem atemorizar os jovens alunos.
A verdadeira tarefa da Escola reside em dotar o aluno de capacidades que possam manter no plano da ética as suas mais legítimas aspirações: a vontade e o desejo deverão assentar em preceitos éticos, em vez de ser colocados em campos opostos numa espécie de campo de batalha mental e emocional.

Interessante seria, de qualquer modo, conhecer a “estatística da ambição e da ética”, reportada a cada um dos cursos de Medicina Veterinária.
Talvez o Conselho Profissional e Deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários (ou até de uma outra qualquer Ordem), saiba informar.

VERTICALMENTE

O governo de Pedro Santana Lopes garante: a autonomização e verticalização dos Serviços Veterinários, será uma realidade até ao final do ano.
Os sectores atingidos pela medida reagem de forma diferenciada.
No seio dos Serviços Veterinários as reacções variam entre o cepticismo e o entusiasmo contido, e a desconfiança e denotada preocupação… estarão em causa factores determinantes: por um lado o permanente anúncio e eterno “volta atrás”, aliado ao facto do Ministério ser governado por convictos “regionalistas”, por outro lado a certeza de grandes dificuldades futuras com a gestão desses Serviços, cuja resolução parece estar para lá da reorganização orgânica.
Os sectores de produção intensiva reagem favoravelmente, em oposição aos tradicionais sectores de produção, mais ligados ao desenvolvimento rural e cooperativo, claramente contrários a esse desiderato.
No sector do consumo o alheamento é quase total.
O Director-Geral de Veterinária apostou, com êxito, o seu destino à frente da DGVA, ao fazê-lo depender da consecução da verticalização.
Ainda não se ouviram os foguetes, talvez porque a festa ainda não tenha começado ou porque o orçamento assim obriga.

11 de outubro de 2004

SOBRE A CIDADANIA

A cidadania é um conceito extraordinariamente complexo que não se limita à simples participação sob o ponto de vista político, mas onde também não cabe a simples recepção mecânica de direitos garantidos por via externa.
Parece inexplicável que uma série de colegas – ainda por cima não recém-formados – se tivessem excluído da discussão da revisão dos Estatutos da nossa ORDEM, indicando que estão indiferentes à evolução dum mecanismo fundamental da regulação da profissão.
Se todos os colegas – nas várias Regionais – se comportarem do mesmo modo, a revisão dum mecanismo tão fundamental acabará por ser efectuada por apenas uma dezena de colegas mais dedicados, o que equivale a dizer que aqueles que se excluíram não favoreceram a democracia instituída, embora, com toda a certeza, não queiram deixar de fazer uso dos direitos consagrados por todos aqueles que a tornaram possível.

6 de outubro de 2004

POR DETRÁS DUMA NOTÍCIA

No Público de 04.10.05 logo na 1.ª página, em letras bem gordas, a vermelho, diz-se:
"Sampaio rejeita medidas avulsas e impõe condições ao governo”
Na página 10, já não a vermelho mas ainda em letras gordas, novo título bombástico, desta vez num artigo de Eunice Lourenço:
”Presidente da República faz ultimato ao governo”
Ouvindo o discurso do Senhor Presidente da República não se pode entender que S.Excia tenha imposto condições ao governo e muito menos que tenha feito um ultimato.
Então qual terá sido a intenção de dar a notícia daquela maneira? Curioso foi também constatar que no noticiário das 20 horas daquele mesmo dia a SIC também afinou pelo mesmo diapasão........
Não sendo admissível que a jornalista em causa e o próprio Jornal desconheçam o significado das palavras ultimato e exigir, sou levado a pensar que o motivo não corresponde apenas à vontade de dar informação correcta. Correcto será concluir-se que aqueles dois expoentes do nosso “media” não são nem apartidários nem imparciais.
O governo que se acautele porque se está caminhando para fazer cair na rua o Poder.

5 de outubro de 2004

COMBATER AS CAUSAS

Complementando o post anterior “Uma à esquerda, outra à direita”

Várias são as situações de degradação do comportamento moral e cívico sendo nossa convicção que muitas delas são resultado duma falha profunda e generalizada na educação na fase de infância, não propriamente na área da transmissão do Conhecimento, mas na da transmissão de certos valores morais e cívicos – tão combatidos pela Esquerda – os quais, digam o que disserem, são referências sólidas para o resto da vida.
Há coisas que devem ser aprendidas (estimuladas) a partir dos 2 até aos 7-8 anos de idade, quando a estrutura cerebral começa a estar em franco desenvolvimento e não mais tarde porque, então, já não resulta tão bem.
Como sabemos, os pais actuais – na esmagadora maioria – vivem permanentemente preocupados com aspectos materiais relativos à manutenção da família ao mesmo tempo que muitos deles têm dúvidas ou ignoram qual a melhor forma de educar os filhos, enquanto que outros, embora saibam como os educar apenas estão em condições de o fazer se abdicarem de interesses materiais tornados indispensáveis. Naqueles, os que constituem a maioria, a educação que receberam na infância não foi a apropriada e agora, como pais, nem fazem ideia dos erros nem das consequências das omissões que cometem na educação dos filhos. E nem sequer imaginam as razões pelas quais os seus “rebentos” não aguentam os tumultos e os contratempos a que ficam sujeitos nesta nossa “vida de cão” e soçobram sem luta face às vicissitudes emocionais. Deviam estar apetrechados para suportar as agruras, as contrariedades (ir ou não ir à “boite”;estudar ou não; etc.) que, aliás, toda a gente tem de suportar, embora suponham que são apenas eles os desprotegidos da sorte. Nem admitem que haja quem as suporte por a sua alma ter sido “temperada” em criança! O que está acontecendo é que em vez de se estar preparado para suportar as contrariedades se vacila às primeiras vicissitudes e se procuram saídas fáceis como, por exemplo, o recurso à droga, ao álcool, ao roubo, etc., como se não existissem outros caminhos. Só que a educação que tiveram não os ensinou a suportar.... E é chegado a este ponto que me insurjo veementemente com todos os processos em que a abdicação é lema a seguir.....
Mais Polícia na rua; mais Escola Segura; mais parques para ensinar prevenção rodoviária às crianças; mais apreensão de droga; mais presídios; mais centros de acolhimento de toxidependentes; menos “casais ventosos”; e outras medidas similares, são, sem dúvida, formas de luta infelizmente necessárias, mas elas não combatem as causas profundas; não passam de tratamento sintomático. A sociedade precisa de formas de luta que combatam as causas, ainda que não possa prescindir das outras formas de acção, mesmo sabendo que a luta a travar seja para durar gerações.
Sinceramente, é isto que se consegue usando apenas aquelas medidas avulsas? É evidente que os tais tratamentos sintomáticos ajudam, mas se não formos ao âmago da questão, a sociedade corre o risco de amanhã constatar que um cidadão perito em prevenção rodoviária assassinou a mãe dos seus filhos por ela não ter feito a sopa a tempo e horas...

4 de outubro de 2004

Vulpes vulpes

É mesmo urgente que apareçam Vets na Política. A Ordem é composta por funcionários públicos que em vez de se baterem pelos interesses reais e futuro da classe, não têm nenhuma independência para o fazer pois têm de obedecer não aos interesses da profissão, mas sim, ao que o "patrão" (Director-geral, Secretário, Ministro), determina, sob pena de serem votados ao ostracismo (leia-se prateleira) lá na repartição onde labutam já que não podem ser postos na rua. Até ver, p'ra já...
Isto não seja tido como crítica. É o que é. É a classe que somos.
Quando a profissão um dia passar a ser eminentemente liberal (como o é nos outros países desta UE onde vivemos) e começar a sentir as reais agruras da vida no pêlo, as coisas poderão começar a mudar.
Enquanto os Vets se escudarem no empregozito medíocre mas seguro do Estado e fizerem da profissão (clínica, etc) um biscate pós laboral, regra geral em consultórios e clínicas de vão de escada que não dignificam em nada a imagem pública da profissão, nada mudará no status quo que se arrasta há muitos, muitos anos. Talvez os novos Vets apareçam com outra postura dada a tempestade que se lhes avizinha. Mas tenho dúvidas! Com a agricultura (?) a dar últimos suspiros e os urbanos cada vez com menos dinheiro nos bolsos para pagar as facturas com a saúde dos animais de companhia, mal vai de facto o futuro da profissão se não aparecerem e já, Vets na política. Lembrem-se: o recente episódio da BSE constituiu uma enorme oportunidade para visibilidade da profissão. Ordem e Sindicato pouco ou quase nada foram capazes de tirar partido da excelente situação... etc. etc. Não sabem de política, são coxos em marketing.
Nada disso. Simplesmente os "patrões" proibiram ou mandaram calar, suas Exas os bastonários, de se pronunciar sobre os temas. Simples!
Take Five

Mais do que VETS na política melhor seria não ter raposas a dirigir a profissão… enquanto assim for a confusão com o pobre ratito é um enorme risco…

A ver o que diz o Fernando…

A DOENÇA MISTERIOSA… OUTRA VEZ!

Completamente de pernas para o ar… perdeu-se todo o discernimento!
A condução dos casos de doença em Seara – Ponte de Lima e o destaque dado pelos jornalistas ao caso, foram a todos os títulos dignos de crítica, tudo o que o "nosso" médico disse sobre o caso… foi pouco.

Para rematar, só a história que nos foi dada, uma vez mais, diligentemente pela TV no jornal da tarde de hoje: Começaram as operações de desinfestação de jardins, parques infantis, arruamentos, muros e outros locais públicos em Seara.
A jornalista de serviço informa que se trata de um acaricida (com um nome destes deve ser eficaz), mas logo o Médico Veterinário Municipal esclarece tratar-se de uma substância designada por amitraz (até rima com eficaz…): no mercado existe apenas uma apresentação comercial (vamos omitir propositadamente o nome e empresa) e essa está apenas indicada para aplicação em banho ou pulverização de ovinos, bovinos e suínos e não em instalações ou locais.
Havendo produtos bem mais baratos, indicados para o tipo de desinfestação pretendida, porque razão se optou por esta metodologia?
Existem, por outro lado, empresas especializadas em desinfestações, não se entendendo a opção pelo "faça você mesmo", estando em causa garantir uma determinada eficácia.

Mas bem pior que tudo isto subsistem razões de natureza científica que toda a gente parece esquecer: sem colheitas sistemáticas de exemplares de carraças, ao longo dos meses, não é possível conhecer os ciclos de vida dos parasitas, susceptíveis de permitir um combate eficaz, resultando a iniciativa da Câmara de Ponte de Lima em operação baseada em suposições sem qualquer valor prático.

Gostaríamos, de qualquer modo, conhecer que suposições foram essas: que carraças esperam eliminar (ovos e larvas incluídas)? Será esta aqui, a carraça castanha do cão?... que reproduzimos com a devida vénia da Public Health Pest Control.


Rhipicephalus sanguineus Posted by Hello

Que efeito residual tem o produto aplicado e em que se baseia tal suposição? Qual foi a concentração utilizada e que suposta reinfestação se pretende evitar? Quantas são as gerações destes parasitas que o clima de Seara "permite"?

Continuarão a comunidade científica e os Serviços Veterinários imperturbáveis ou aproveitarão a oportunidade para repensar o levantamento parasitário do país, conjugando os esforços que muitos vêm desenvolvendo pontualmente aqui e ali, potenciando intervenções que já são habitualmente desenvolvidas no meio rural?...

UMA À ESQUERDA, OUTRA À DIREITA

Esta vida está de pernas pro ar!
Considero que a profissão de bombeiro é muito ingrata porque ele, o profissional, pode saber qual a causa do incêndio que está a combater sem, contudo, estar habilitado a combater a causa que lhe deu origem o que, a verificar-se, por certo evitaria algumas vezes que o incêndio se repetisse. É como se um médico tratasse um doente com tuberculose pulmonar apenas com um xarope antitússico, ou um médico veterinário não se preocupasse com a etiologia responsável pela doença do seu “cliente” e apenas o medicasse com vista a debelar a sintomatologia manifestada. Aliás é esta a maneira como a maioria dos políticos encara os problemas que têm em mãos ou seja, uma actuação à bombeiro, o tal que não tem possibilidade de evitar os incêndios que mais tarde ou mais cedo terá que combater....
Vem isto a propósito duma notícia no Público de 2004.10.03 em que a jornalista Bárbara Wong refere que o Reitor da Católica está preocupado com o insucesso escolar dos alunos que chegam à Universidade pretendendo - julgo eu - que o Poder interfira sobre o funcionamento dos bares e “boites” para que – deduzo eu – os alunos universitários não apresentem tão altas taxas de subaproveitamento escolar.
Como a rapaziada não foi ensinada na infância – o tal “tratamento preventivo” – a comportar-se bem, eis que o Senhor Reitor faz apelo ao governo para o uso dum tratamento sintomático em vez de clamar por uma actuação etiológica.
Vá lá, vá lá, que o Senhor Reitor teve o bom senso de não propor que se legislasse no sentido de encerrar todos os bares e casas de alterne e que se edificassem em todas as Escolas e Universidades mais espaços lúdicos capazes de entreter os alunos, com vista a desviá-los dos tais “antros de perdição”....
Talvez um processo de vigilância electrónica desse resultado!


Veterinário precisa-se para diagnóstico de "especialidade"... Posted by Hello

3 de outubro de 2004

COMPROU MULHER POR 15 CABRAS

O vigário atacou: a troco de quinze cabras ofereceu-se a mulher… o vigarizado "morre" de vergonha… mas o que não sabemos é se os animais estavam vacinados com a famosa REV1, no âmbito da, não menos famosa, campanha de vacinação massiva (ou maciça como lhe chama o seu principal mentor).
Agradecemos informações sobre a emissão de passaporte ou destacável de rebanho, assim como das respectivas guias sanitárias…

SAÚDE PÚBLICA

O nome de um "dossier especial", de periodicidade quinzenal e de distribuição conjunta com o jormal "Expresso".
Há uns quinze dias, mais coisa menos coisa, salvo erro na edição nº 13, aquela publicação dispunha uma meia página, dedicada à Ordem dos Farmacêuticos, dando oportunidade à divulgação de "dia do farmacêutico" e, se não me engano outra vez, o dia de S. Cosme e S. Damião, permitiam ao bastonário Aranda da Silva a exaltação da profissão.
Amanhã, dia 4 de Outubro, comemora-se o dia do Veterinário... na edição de Sábado passado do "Saúde Pública" (nº 14), nem uma linha sobre o facto... Alguém me ajuda a interpretar o facto?
Qual a admiração? no site da Ordem dos Médicos Veterinários também não é feita qualquer alusão...

2 de outubro de 2004

SEGURANÇA ALIMENTAR, ESQUER' DIREITA

Não tenho a pretensão de pensar que existam assuntos que não são nem de esquerda, nem de direita, muito embora assim pareça quando se fala de Segurança Alimentar ou Saúde Pública.
A industrialização, o desenvolvimento económico, a igualdade de direitos, foram a par com o número crescente da procura de bens alimentares associado à evolução social e política, factores essenciais à identificação de elementos de Segurança Alimentar e Saúde Pública, parecendo assim que o assunto tem uma natureza estritamente técnica, despida de conteúdo ideológico e de opções políticas.
Julgo que quem assim pensa se engana redondamente.
Sem ser exaustivo, este espaço não tem esse fim nem essa capacidade, basta olhar para alguns dos princípios em que assentam, particularmente a Segurança Alimentar, mas também a Saúde Pública:

a) Da exploração à refeição (stable to table, fish to dish, farm to table, etc.). Este princípio básico, em que assenta toda a política de segurança alimentar da União Europeia (a profissão veterinária em Portugal tem feito pouco eco deste aspecto, diga-se de passagem e não se sabe bem porquê), exige que em toda a cadeia alimentar, em todos os sectores de produção, em toda a União e a todos os níveis de decisão, exista uma abordagem integrada, que envolva e responsabilize todos os intervenientes. Ora este primado de Autoridade e Responsabilidade sempre foi visto de lado por socialista e comunistas, para quem se impõe, antes de mais, a democratização dos sistemas e a garantia de "alimentos para todos".

b) Avaliação, comunicação e gestão dos riscos na Saúde Pública. Toda a política de Segurança Alimentar deve basear-se nestes três componentes da análise de riscos, de forma rígida e sistemática, baseada em estruturas de coordenação e controlo em cuja Autoridade seja depositada toda a confiança, sejam por parte dos produtores, seja por parte dos consumidores. Também este tipo de exigência em termos de organização, gestão eficaz e eficiente e sobretudo grande disciplina e profissionalismo, não vão ao encontro de uma "ideologia de esquerda".

c) Responsabilidade básica pela segurança alimentar: cabe aos produtores de alimentos para os animais, criadores, agricultores e produtores de alimentos. Sem negar este princípio de responsabilização, que até defenderá, a "esquerda" enfatiza sobretudo os valores da democracia, da intervenção do estado e do financiamento público, afastando-se precisamente daquele princípio.

Talvez por esta razão a Segurança Alimentar em Portugal continue a marcar passo: curiosamente, a profissão Veterinária gosta de primar por aqueles valores, de forma tão interessante que não é difícil encontrar "esquerdistas" inveterados em defesa de uma certa forma de "corporativismo"… o corporativismo da ciência… sobretudo… ou imbecis corporativistas escudando a sua ignorância e incompetência naqueles primados…

Que o governo manifeste a sua disposição em manter a resolução do anterior executivo relativamente à organização dos Serviços Veterinários (SV), já não é mau, desesperante são os timings políticos e a oportunidade de impor essa organização… releve-se a o meu pretensiosismo em pensar tratarem-se de SV… mas muito pior que isso são as tibiezas das Organizações profissionais, a indolência dos seus membros e os enredos, urdiduras e mexericos em que se metem os dirigentes associativos.

29 de setembro de 2004

QUE DIABO DE MANEIRA DE SER POLÍTICO (in cauda venenum)

As páginas 6 e 7 do jornal Público de 04.09.22 formam um conjunto notável sob vários aspectos quanto aos conteúdos dos artigos inseridos, embora na presente oportunidade apenas me apraz sublinhar contradições.
No escrito pelo Ministro do Ambiente sobressai uma seriedade de propósitos que por não ser usual nos políticos é digna de reparo, embora – por ser escrito por um ministro – não deixe de ser lamentavelmente ingénuo;
No subscrito pelo jornalista e licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras do Porto, Joaquim Fidalgo, sobressai uma ironia que só não classifico de invejosa por acreditar que ela não existe no carácter deste jornalista, embora o que foi escrito pudesse ser dito dum modo menos contundente para o visado a quem não é justo culpá-lo por uma situação não criada por ele mesmo.
No artigo “A Floresta de Enganos de António Barreto”, subscrito pelo Prof. Pedro Teixeira da Faculdade de Economia do Porto, atribui a António Barreto a intenção de arranjar um “bode expiatório” fácil, embora reconheça o mal que se tem feito na educação em Portugal, para de seguida espraiar-se em considerações apenas com o intuído de ilibar a Esquerda das culpas que lhe foram assacadas por António Barreto;
Na coluna de Eduardo Prado Coelho – doutorado em Teoria da Literatura – me parece algo criticável o recurso que usou para pôr em cheque o ministro Nobre Guedes, recorrendo à expressão: “Enviaram-no para uma pasta, a do Ambiente, em que não se lhe conhecia a menor preparação.....” Será que o doutoramento em Teoria da Literatura e os vários cargos em que o Prof. Prado Coelho tem sido investido são de molde a conferir-lhe a autoridade bastante para partir do princípio que cada ministro deva ser um expert em todos os assuntos da sua “pasta”?
Curioso é também a coincidência de três indesmentíveis ataques à direita terem sido publicados em páginas contíguas de modo a que quem abra o jornal se depare de imediato com todos os artigos. Há muitas coincidências deste género.
Aliás de há muito que parece existir uma estratégia de pressão constante contra o governo de modo a atingir-se o desidrato daquele velho adágio: “Água mole.....”

27 de setembro de 2004

A PRESSA

Vivemos num mundo em que não mais se tem paciência para esperar seja o que for; num mundo que estimula cada um a ser rápido e passar à frente ao mais ínfimo tempo de espera. Cheios de pressa e ansiosos por atingir os objectivos, já não se sabe se alguns dos vulgares dispositivos tecnológicos apareceram em consequência daquela pressa, ou se esta resultou da oferta daquelas tecnologias...
Certo é que “pressionar um botão” facilitou extraordinariamente a obtenção dos objectivos a ponto de até os menos atingidos por este mal já não terem paciência para esperar que alguém demore algum tempo a fornecer o que desejam, ou, sequer, para ouvir o que se tem para lhes dizer. Se instalassem nas tais máquinas (refrigerantes, preservativos, etc.) um contador de murros e de ponta pés, ou se os responsáveis estivessem mais atentos ao que se passa com as crianças e adolescentes, veriam que há motivo para preocupação. Já nem os mais velhos são capazes de fazer com que a mente acompanhe os avanços científicos e tecnológicos e, muito menos, que possam dizer que estão a par seja do que for, embora vivamos num mundo que nos sufoca com Informação de toda a ordem, ainda que, quase sempre, eivada de superficialidade porque quem a divulga também padece do mesmo problema.......
Não sei se o que está a acontecer é maléfico para a sociedade, mas suponho que sim porque o cérebro não é “artigo” que se possa comprar na loja do chinês.... Mais cedo que mais tarde, surgirão outras consequências – quiçá mais graves – deste “fenómeno” e uma delas certamente que dirá respeito ao comportamento relativamente à “coisa política” porque nem há “botão” para ser pressionado, nem os políticos deixaram de olhar para o próprio umbigo uma vez que continuam a não dar satisfação à tal pressa com que toda a gente quer que se façam as mudanças......Continuam muito distraídos (?). E como, na generalidade, não há uma massa crítica capaz de lutar pelos seus ideais, não será de esperar outra coisa que um desinteresse cada vez maior, o qual acabará por também pôr em perigo a Democracia.
Será isto o que se deseja? Estejamos atentos!

26 de setembro de 2004

ACABOU A DOENÇA MISTERIOSA

Foi finalmente esclarecido o “mistério” que “atacou” na Aldeia de Seara, em Ponte de Lima. O Instituto Ricardo Jorge acabou por identificar o agente causador da doença que alimentou o noticiário televisivo durante alguns dias e que pelo seu teor chegou a “alarmar” as pessoas que vivem na dita aldeia e arredores e quiçá algumas outras, menos avisadas, no resto deste atrasado país.
A extrapolaçâo para o caso do jornalista não especializado, autor das reportagens televisivas, faz-me lembrar aquela anedota do “feijão no ouvido do paciente.”
E agora? Esclarecido o caso, acabou-se o manancial produtor da notícia!
Que teria acontecido SE o director clínico daquele hospital durante a entrevista tivesse dado a sua opinião sobre qual seria o agente infeccioso e, agora, o veredicto do Instituto não a confirmasse? Cairia o Carmo e a Trindade com a agravante da opinião pública – estimulada pelo tom agressivo do entrevistador televisivo – passar a ser altamente desfavorável sobre o dito médico quando isso em nada adiantaria! O público teria ficado melhor esclarecido?
Só sob uma opinião induzida, alguém, mesmo que ignorante, pode pensar que um médico – só por ser médico – perante uma situação semelhante nunca erra.
Enquanto as condições não mudarem – o que será impossível enquanto se quiser empolar o acontecimento para dele se extrair material para mais notícias – fará muito bem qualquer entrevistado acautelar-se!
Ou o senhor jornalista ao dar conta do que conseguiu com uma notícia vulgar - que não merecia ser A Notícia - colmatou o exagero “recolocando o feijão no ouvido do paciente”?
Caberá agora à Autoridade Veterinária local o papel de actuar convenientemente e fornecer à população as informações adequadas.

23 de setembro de 2004

VET ON WHEELS

A necessidade espevita o engenho, e se melhor o pensou, melhor o fez, de facto: a falta de oportunidades de trabalho levou um médico veterinário a prestar serviços móveis de cardiologia por esse país fora.
Veja (aqui) a história completa de uma ideia magnífica: aproveitando formação complementar e específica no domínio da cardiologia no Reino Unido, este médico veterinário adaptou um veículo ao diagnóstico de patologia cardíaca, deslocando-se às diferentes clínicas e hospitais que necessitam do seu concurso.

Original no âmbito da Medicina Veterinária, esta solução fora já "inventada" na Medicina Humana desde os tempos da luta contra a tuberculose, com carrinhas móveis que se deslocavam às populações, instituições e empresas, provendo serviço de rastreio (intradermotuberculinização e radiologia) ou mais recentemente através das unidades móveis de medicina do trabalho, estabelecendo calendários de "despistes" exigíveis legalmente por aquele programa de medicina do trabalho, em que também os meios auxiliares de diagnóstico se deslocam aos trabalhadores.

Resta agora saber qual a classificação que a Ordem dos Médicos Veterinários vai dar a este tipo de unidade, já que o respectivo "Regulamento de Exercício de Clínica Médico Veterinária dos Animais de Companhia em Centros de Atendimento Médico Veterinário", não prevê este tipo de unidades.

Estamos em pulgas para ver!

22 de setembro de 2004

DECADÊNCIA

É usual verificar-se um acentuado desrespeito pelas normas de conduta em sociedade, especialmente por parte dos mais jovens, mesmo em alguns dos que frequentam os graus mais elevados do Ensino. Mas não só nos jovens!
Este comportamento resulta principalmente do facto dessas pessoas não terem sido ensinadas (educadas) a suportar de cabeça erguida as contrariedades que sempre surgem no dia-a-dia da vida, como acontece quando em criança todas as vontades são sistematicamente satisfeitas. Tais manifestações, mesmo aquelas que, para bem da formação do carácter dos próprios contestatários deveriam ter sido “contrariadas” em devido tempo não o foram e assim, sob o ponto de vista sociológico, o futuro está a tornar-se confuso e um tanto “perigoso”.
É evidente que aquelas normas não constavam de um “catálogo” adquirível numa qualquer banca de jornais, ou duma cartilha escolar. O seu ensino era ministrado pelos pais, pelos avós, pelos professores e, mais cautelosamente, até pela pessoa mais próxima através duma admoestação directa. Eram normas tacitamente admitidas e o desagrado pelos incumprimentos era de tal modo feito sentir que, em geral, só numa determinada “franja” da sociedade ele não dava resultado. Em tempos mais recentes, as manifestações de desagrado (mania dos fascistas) deixaram de ser feitas e de seguida uns quantos passaram, propositadamente, a não cumprir as regras como se tratasse de um desafio entre os que se consideravam a si próprios mais espertos, ou mais aptos e o resto...... A tal “franja” cresceu.
A confusão entre Autoridade e Liberdade acentuou-se e a falta de uma estratégia para contrariá-la – omissão devida, essencialmente, ao medo da contestação, aliás sistematicamente explorada por alguns quadrantes políticos – levou à situação actual, por sinal nada lisonjeira para os políticos em geral (a democracia não se constrói assim).
Os mentores desta situação deixaram deformar o conceito de Autoridade alegando temer o abuso por parte dos que a detinham, como se os abusos de poder só pudessem ser contrariados pelos próprios contestatários e não combatidos pela Justiça. Assim, o Estado de Direito é frequentemente molestado. Para cúmulo, tem-se deixado “correr o marfim”..... Agora é o que se vê!
Muitos pais abdicaram do dever de educar os filhos porque eles também não foram devidamente ensinados e muitos dos adultos que têm a incumbência de fiscalizar, controlar, passaram a ser ao mesmo tempo juízes, permitindo-se “perdoar” toda a espécie de infracções, das mais ligeiras às mais graves, ou fazer vista grossa, à sombra da tolerância.... Até a nível oficial muitos desvios das regras foram praticados sem se medirem as consequências sociológicas resultantes do povo constatar que, afinal, o exemplo não vem de cima..... E aumentou a corrupção!
Nem ataque ao âmago do problema, nem repressão; e de degrau em degrau desceu-se ao nível de pôr a própria democracia em perigo. Atingiu-se um ponto donde dificilmente se vislumbra uma saída sem uma Autoridade muito mais dura do que aquela que se pretendeu (?) evitar.
E já passaram 30 anos servindo a quem?

21 de setembro de 2004

DOENÇA DESCONHECIDA

Há três ou quatro dias que os midia, através de entrevistas, espalham ou acalentam o medo na população onde ocorreram meia dúzia de doentes com uma doença desconhecida e, ainda por cima, com duas mortes.
Habitualmente, os jornalistas, especialmente os da TV, exercem uma “pressão” tal sobre os médicos que estes, sem darem por isso, se deixam enredar em explicações nem sempre claras para os leigos que as escutam, contribuindo assim para aumentar a confusão, ao mesmo tempo que facilitam uma ascendência dos “midia” nem sempre susceptível de aplauso..... É certo que os midia podem desempenhar um papel importantíssimo na informação e no esclarecimento das populações (isso ninguém discute), mas o modo como actuam exerce uma “pressão” que faz com que os técnicos receiem errar, pois logo a TV e o “povo” lhes cai em cima e muitas vezes injustamente.
Por um lado, o excesso de cautela, por outro a inibição que as pessoas não habituadas às câmaras da TV sentem, faz com que os “discursos” surjam confusos, titubeantes, pouco claros e que, assim, seja transmitida sobre o entrevistado uma ideia de pouca segurança de conhecimentos, quando não de incompetência.
O presente “surto” – como tem sido chamado – é paradigmático do que acabámos de referir.
Na génese desta situação podem estar alguns factores, mas um me parece particularmente importante: A falta de especialização do jornalista sobre a matéria relativa à entrevista. Se atentarmos no que se passa no país, um mesmo jornalista tanto é despachado para cobrir um incêndio como para... perguntar a uma pessoa que acabou de perder um ente querido como é que ela se sente.
No caso da “doença desconhecida” ocorrida há pouco na área de Ponte de Lima, os médicos “desconfiam” do que se trata, mas como há outras hipóteses não querem arriscar a hipótese mais provável porque se as análises laboratoriais não confirmarem a suspeita logo serão declarados por toda a legião que ouviu a entrevista como incompetentes.
Mas a falta de especialização do jornalista é notória porque se ela existisse não só as perguntas feitas seriam de outro género como a oportunidade seria aproveitada para “informar” a população sobre vários aspectos que, clamorosamente, ficaram em aberto....
Todas as cautelas são poucas!

QUEM É O DESEMBARGADOR?

Não haverá grandes dúvidas sobre a natureza "política" do embargo ao comércio de bovinos, produtos de origem bovina e produtos bovinos, imposto a Portugal pela União Europeia; da mesma maneira que não subsistem quaisquer dúvidas sobre os fundamentos de natureza técnica e científica que sustentam o sequestro dos bovinos nacionais.
Quer dizer que, no quadro de funcionamento da União Europeia, temo até que não haverá "volta a dar" a tal condicionalismo, nem agora, nem no futuro, as decisões assentarão sempre em critérios de natureza exclusivamente política.
Por outras palavras: os aspectos de natureza técnica e científica estarão sempre subordinados aos de natureza política ou melhor, não basta que técnica e cientificamente se justifique "fazer" de determinada maneira, será necessário demonstrar que essa é a maneira correcta e equilibrada de se fazer, para que seja possível (politicamente) merecer uma decisão nesse sentido.
Apenas a estética e a arte conseguiram alguma emancipação desta "tutela".

Sem emitir qualquer juízo de valor sobre tal circunstância, esse não é o leitmotiv deste post, é evidente que dentro de certos parâmetros, a capacidade de exprimir um certo parecer científico e a qualidade desse parecer condicionam e determinam o sentido de uma dada decisão política.
Dentro de determinados limites, uma decisão desta natureza poderá ser tomada num determinado sentido ou no sentido exactamente contrário, ainda que a sua sustentação técnica e científica seja "de facto" a mesma.
No caso do embargo às exportações bovinas nacionais, os fundamentos parecem enquadrar-se no que ficou dito: os mesmos dados estatísticos e de avaliação da execução do programa de controlo em Portugal, sustentam dois sentidos de voto: a França votando contra e a Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido, votando a favor.
Sendo a base da decisão exactamente a mesma, a divergência de opiniões tem obrigatoriamente que se sustentar na latitude de análise permitida por esses dados, sem o que facilmente poderia ser posta em causa a credibilidade de um certo sentido de voto, como o voto contra da França.

Mesmo admitindo um maior ou menor nível de exigência, não é admissível que um conjunto de elementos estatísticos e uma avaliação da execução das acções revelando uma evolução positiva e deixando, sem margem para dúvidas, que, à luz dos indicadores estabelecidos pelo Office International des Epizooties (OIE), foram concretizados os objectivos mínimos, na perspectiva do levantamento do embargo, possibilite outro sentido de voto que não aquele.
A não ser assim, permito-me pensar que a apresentação de resultados pelas Autoridades Nacionais não obedeceu aos melhores critérios de natureza técnica e científica, pois assim sendo a "latitude de análise" a que antes aludi, estaria muitíssimo condicionada, tão limitada que seria ridículo votar contra, como a França continua a ameaçar fazer, apenas porque politicamente tal voto poderá ser o primeiro passo para o levantamento do embargo ao Reino Unido, abrindo portanto o caminho à abertura ao comércio do outro lado da mancha.

As movimentações diplomáticas podem ser muitas, mas o que lhes daria força seria, sem dúvida, um relatório de execução de actividade em Portugal, claro e objectivo, assente em conceitos correctos de epidemiologia e estatística, não deixando margem para dúvidas sobre o profissionalismo colocado naquela execução.
Penso que este não é o caso e por isso foi dada "margem de manobra" às Autoridades francesas; não se queixem pois do seu feitio terrible, cuidem antes de emendar a mão, os "técnicos e cientistas" responsáveis pela elaboração dos relatórios.

Não venham, em qualquer caso, lamentar a decisão do Desembargador, que afinal não vai desembargar nada, nem embandeirar em arco em caso contrário.
Já falta pouco, mais logo e quarta-feira será tomada uma decisão pelo respectivo Comité Permanente.
Aceitam-se apostas!

20 de setembro de 2004

MEU CARO MÉDICO

Não é com facilidade que, com uma frequência inusitada, nos vemos confrontados, já nem falo da iliteracia científica, mas da mediocridade intelectual de certos jornalistas e também com a estreiteza mental de quem com eles, por vezes, fala. Não sei se "as luzes dos holofotes" são capazes de bloquear algumas sinapses nervosas mas certo, certinho, é que muito boa gente quando colocada à frente duma câmara acaba por se baralhar, de tal maneira, com a linguagem que utiliza (entre o cientificamente pretensioso e a "banalidade" inteligível pelo cidadão comum), com a colocação no "ângulo mais favorável" (como se o perfil físico tivesse alguma coisa que ver com o "parceiro" intelectual), com o reconhecimento das capacidades e competências (que por ser auto-focada é geralmente distorcida), que na pior das hipóteses deixa tolhido qualquer mortal, quando não suscita um riso a bandeiras despregadas.

Vem a lenga-lenga a propósito da notícia que hoje inundou jornais e televisões sobre a "doença misteriosa" que atingiu mortalmente duas pessoas em Seara – Ponte de Lima.

Diz o Publiconline": "Em comum, os sete casos têm apenas os sintomas (febres altas, manchas amareladas no corpo e coma) e a origem: Seara"... devemos concordar que é uma grande apenas!... e mais à frente: "Duas semanas depois, o marido da senhora foi encaminhado, com os mesmos sintomas, para o CHAM [Centro Hospitalar do Alto Minho]...Em observação, e segundo avançou ontem o director clínico do CHAM, Adriano Magalhães, estão também os dois netos das vítimas. ", que raio, ninguém, entre os habilitados, fez referência aos factores de risco presentes... sempre julguei que com umas "attack rates" e um inquérito bem conduzido já teria sido possível ter pistas bem concretas e se esse é o sentido de análises sofisticadíssimas, a esse não menos mediático e não menos misterioso (para a população em geral) ADN. Então porque não se faz referência ao facto?

Mas aquela peça inclui uma outra preciosidade: "...o delegado de saúde de Ponte de Lima, Emídio Morais, ordenou o abate dos animais domésticos da casa, nomeadamente galinhas e um porco, que também estava doente, pedindo também a remoção dos dejectos animais.", mas tal competência não requer o concurso da Autoridade Veterinária? Mudou a Lei ou a competência legal para determinar o abate de animais, por razões sanitárias, está atribuída exclusivamente à Direcção-Geral de Veterinária? O Delegado de Saúde não sabia ou fê-lo com que concurso das Autoridades Veterinárias? Admitindo que a decisão possa ter sido, na prática, uma boa decisão, pelo risco que aqueles animais pudessem representar, coloca-se uma questão interessante: qual foi o destino dado aos cadáveres? Não me digam que não se preocupou a Autoridade Sanitária em proceder à sua destruição! Se realmente constituíam um perigo em termos de contágio, o seu enterramento (admitindo que o destino foi apenas esse) não será uma fonte de disseminação?
Entretanto o "Correio da Manhã" anuncia que: "O presidente da Junta de Seara, Cândido Afonso, já mandou abater os animais da família (porcos e galinhas), enquanto o delegado de Saúde, Emídio Morais, aconselhou a população da freguesia a não consumir a água dos poços."... enfim ficamos sem saber ao certo quem determinou o "abate sanitário". Afinal foi o Presidente da Junta ou o Delegado de Saúde? Em qualquer dos casos é curiosa a frase, já que a inumação do cadáver sempre poderia estar associada à contaminação freática.

Título no "Correio da Manhã": "Pânico em Ponte de Lima. VÍRUS MATA DUAS PESSOAS"
Título do "Diário de Notícias": "A origem da doença que atingiu 7 habitantes da Aldeia da Seara, em Ponte de Lima, ainda é desconhecida."

Interessante mesmo é como o raio da doença foi apelidada de misteriosa… parece que não havia melhor sinónimo de desconhecida, ou até como o desconhecido foi confundido com o "ainda sem diagnóstico definitivo".

Sem comentários... interpretem como quiserem... aceitam-se comentários!
Em particular do mais popular médico da blogosfera!

16 de setembro de 2004

VETERINÁRIO PRECISA-SE

Um semanário da região de Trás-os-Montes, na sua edição de 3 de Setembro pp., adverte para o perigo de extinção da Raça Mirandesa por haver falta de vitelos para futuros reprodutores....
Com tantos técnicos de gabarito estou certo de que tal não acontecerá, mas parece impor-se alguma observação credível sobre o pressuposto, não vá o diabo tecê-las.
Segundo aquela notícia, os agricultores que fazem parte da Associação responsável pela raça já reivindicam mais subsídios (sempre o subsídio!) ainda que seja quase certo que o problema, a existir, não se resolverá desse modo mas sim pelo cumprimento de certas regras técnicas e administrativas a par da mobilização de vontades e firme convicção – por parte dos agricultores envolvidos – de que a “meia bola e força” habitual não se pode aplicar a um problema deste género.

A culpa é do governo diria a vaca mirandesa Presidente do Sindicato dos Bovino da Raça Mirandesa..... se soubesse falar!
Os veterinários que se acautelem!

14 de setembro de 2004

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (3) (Dois erros clássicos)

O que se passa na Administração Pública relativamente à desmotivação dos funcionários é confrangedor. Embora se saiba, perfeitamente, que a inépcia dos decisores, inclusivamente na área das relações pessoais, é uma das causas da séria diminuição do desempenho do seu pessoal, o governo continua a não dar importância especial a este nível. Qualquer reforma que se faça não tendo em devida consideração a avaliação destes senhores estará irremediavelmente comprometida.
O governo dos USA – com mais de dois milhões de funcionários – desde há muito que faz uma avaliação pormenorizada das competências necessárias para o desempenho eficaz de qualquer função, não se compreendendo que no nosso país ela não seja feita e que o governo se proponha fazer uma reforma antes de implementar as bases desta avaliação. Esta atitude, só por si, demonstra a pouca (ou nenhuma) importância (falta de competência?) dada a esta questão mesmo ao nível mais alto da AP.
Por isso dizemos que entre nós continuam a ser praticados dois erros clássicos: - Um é pressupor que alguém que possua um qualquer conhecimento técnico especializado sabe, necessariamente, dirigir pessoal mesmo que as pessoas sejam tão diferenciadas como acontece na AP. Não significa que um técnico superior, só pelo facto de possuir uma licenciatura, tenha, necessariamente, capacidade de liderança. O outro erro, este bem mais grave, é partir-se do princípio de que este aspecto nem sequer deve ser discutido porque a decisão é sempre política e como tal quem é nomeado como decisor estará capacitado para decidir e ponto final.
É evidente que não se discute se uma determinada pessoa escolhida pela sua filiação partidária, ou pela sua afinidade política, não possa ser um bom decisor. Condenável é não se avaliar a sua competência em termos de Inteligência Emocional e de liderança antes de ser concretizada a sua nomeação.
É confrangedor ver tanta gente – capaz de efectuar o seu trabalho de maneira eficiente – estar tão descrente e tão desmotivada e acabar por se tornar negligente por o decisor nem sequer saber a importância que uma palavra de estímulo pode ter. Em contrapartida, ele próprio sabe que não será posto em causa porque o seu desempenho não será avaliado, ou que está imune pelo facto de ter sido nomeado por compadrio político.
Não é negligenciando estes aspectos que a nossa AP poderá alguma vez ser eficiente q.b., seja qual for a reforma que se faça.
Haverá algum VET que, sinceramente, duvide disto?

13 de setembro de 2004

VET MUNICIPAL / AMBIENTE

Quem está em contacto permanente com o campo – como acontece com um agricultor ou com um médico veterinário municipal – é quase impossível não reparar em certos factos que se repetem ciclicamente. Estamos a pensar na emigração de certas aves; no cair das folhas de algumas árvores; na construção dos ninhos; no início da floração; em possíveis comportamentos de uma grande série de “insectos” face às condições climáticas, como acontece, por exemplo, com o escaravelho da batata que tem a sua actividade condicionada ao Nº de horas de dia; enfim, num grande número de outros fenómenos.
Na vivência destas pessoas estes fenómenos podem ser tão corriqueiros, tão banais, que podem passar-lhes ao lado sem a sua atenção ser despertada. No entanto, creio, bastará um motivo e uma oportunidade para já não ser assim.
Motivo existe: está em curso uma certa alteração climática donde possivelmente resultarão perturbações em alguns habitats.
Oportunidade também existe, especialmente para o médico veterinário municipal, mesmo muito maior que para um biólogo. Ao médico veterinário municipal – se estiver para aí motivado – será fácil contactar com factos que o alertem para alterações (muito precoces) do ciclo evolutivo ou do habitat (por exemplos) duma carraça, duma ave, ou de uma borboleta......Mesmo que o médico veterinário não tenha tantos conhecimentos especializados como um biólogo, contudo, em relação a ele estará em nítida vantagem visto o problema das oportunidades de contacto com o objecto de estudo lhe ser francamente favorável.

Não há nenhuma alteração a um habitat que lhe tenha chamado a atenção?
Não deu conta de alguma alteração climática susceptível de interferir com a vida dum determinado insecto, por exemplo um mosquito?
Estamos numa época em que a valorização pessoal é indispensável e a competição acesa!

DOBAR A MEADA

É uma das melhores metáforas ao trabalho de equipa e sobretudo ao saber dar e receber.
Dois braços esticados que se agitam e se ajeitam ao ritmo do novelo que se enrola, dando fio a uma velocidade regular e sem deixar que estique ou afrouxe demasiado. Outras duas mãos que giram e reviram sobre si arrumando o fio num fofo novelo, ao ritmo em que a meada se vai libertando, e em pequenas "aduelas" que o não deixam desfazer.
Não sei se por saudades da infância, em que me "fartei" de ajudar a dobar meadas, se pela firme certeza que a maior parte das coisas só funciona se houver espírito de equipa, de dar e receber, o certo é que bem podiam pôr os alunos das Escolas, Faculdades ou Universidades, em particular os cursos de Medicina Veterinária, a dobar meadas durante os quatro anos que dura a licenciatura (sim… com a implementação do
processo de Bolonha vão ser quatro...).

A propósito do processo de Bolonha e relativamente ao Veterinário que se precisa para o futuro, não era nada mau que o ensino/aprendizagem de dobar meadas incluísse alguns princípios básicos:
- dignidade: saber gerir e dirigir uma "organização veterinária";
- responsabilidade: na conduta profissional e ética;
- integridade: no trabalho de equipa e na relação com os colegas;
- honestidade: sobretudo de natureza intelectual;
- sabedoria: das ciências em que se baseia a profissão médico-veterinária;
- humildade: saber quando e a quem pedir ajuda profissional;
- franqueza: na comunicação, com os clientes, os colegas e as autoridades;
- curiosidade: saber manter os conhecimentos profissionais actualizados;
- rectidão: na elaboração de relatórios, na prescrição de medicamentos e na emissão de certificados;
- probidade: na aplicação da lei, seja ela qual for;
Como o calendário de aplicação do processo de Bolonha não espera pelos distraídos, aqui fica a colaboração do Veterinário precisa-se… para esses lembramos que a sua implementação está prevista para 2005-2006, não sabemos é qual vai ser o input da profissão no processo…