3 de abril de 2009

BLUE DOG PROJECT

Num comentário de Kadete, que aqui reproduzo, aparentemente se contesta a abordagem que antes propus para a problemática decorrente das agressões por cães.

E não querias mais nada?

Só quem anda distraído precisa de estatísticas e ainda acabava por chegar à conclusão que a origem dos ataques tinha justificação no comportamento dos atingidos.

Também me parece asneira relacionar as razões da conduta oficial com qualquer base de dados, porque nunca serviu, nem serve para isso. Têm obrigação de criar medidas legais para disciplinar a posse e detenção de cães com essas características e fazer aplicá-las!

Certamente que há mesmo pessoas que não têm condições psicológicas, sociais e estabilidade afectiva para se responsabilizarem por animais potencialmente perigosos ou agressivos.

Os veterinários têm que fazer o seu papel que é informar os proprietários dos comportamentos e das formas para lidar com esses animais, ensinar a testar a sua sociabilização para não pôr em risco quer quer que seja, sobretudo os mais indefesos (crianças e idosos).

Quem sabe se não era de comparar o que é feito nalguns países para se poder fazer adaptações!

A Ordem deve ter alguma coisa a dizer ou não?

Ah, O bastonário nomeou um GT para estudar o assunto!

Kadete


1. “Só quem anda distraído precisa de estatísticas...”.

Problema atávico na Lusitânia. Melhor mesmo é tomar decisões com base numa avaliação pela rama, naquilo que se diz, e com a intensidade que se diz, no café ou nos jornais ou seguindo apenas a nossa intuição.
Pior ainda: quando num determinado momento, ou determinado local, for politicamente conveniente... (o presidente da câmara cá do sítio rapidamente desmantelou a equipa de captura de cães vadios quando descobriu que iria perder as eleições com a má língua e o ziriguidum que se instalou).

2. “...criar medidas legais para disciplinar a posse e detenção de cães...”

Então não se sabe que a aprovação de leis só por si não chega? Se assim fosse a harmonização legislativa com a Comunidade Europeia não teria sido necessária, bastava que todos os países adoptassem todas as leis, sem restrições.

Não foi dito naquele 1º Encontro de Saúde Pública Veterinária pelas colegas da Direcção-Geral de Veterinária que houve precisamente aspectos da lei que foram deixados cair por inexequibilidade prática na sua aplicação?

3. “... há mesmo pessoas que não têm condições psicológicas, sociais e estabilidade afectiva...” para deterem cães.

A afirmação será verdadeira, mas o colega não ouviu dizer (sempre naquele Encontro) que esse foi exactamente um dos aspectos que, estando previsto na Lei, foi necessário abandonar porque não podia ser aplicado na prática?

A razão é simples... quem, como e em que circunstâncias, seria atestada tal condição psicológica, social ou afectiva?

A menina Mariazinha dos cães que, por desgosto de não ter filhos (segundo se diz) acarta cães vadios para casa, tem mais ou menos condições psicológicas para deter cães que a esbelta Maria Rosa do 1º esquerdo, que as más línguas dizem dedicar-se a práticas indecorosas à porta fechada?

Os Pereira Nunes, família numerosa onde todos os dias se discute quem vai passear o “farrusco” (obrigação que normalmente recaí sobre a pequena Matilde), tem mais ou menos condições sociais que um sem abrigo?

O Manel magala, matulão entrado na idade, solteiro inveterado, que dizem treinar o seu pastor alemão para morder quem dele se aproximar com ar suspeito, tem mais ou menos condições afectivas que o Dr. Belmiro Soares, detentor de um pequeno pincher que o segue para todo o lado?

4. O papel dos Veterinários...

Estamos de acordo! Por isso sugeri no post anterior, uma estratégia sustentada em três pilares, sendo um deles o da prevenção “...dirigida sobretudo a pais e crianças, através dos Médicos Veterinários (práticos, oficiais ou outros).”.

Tal circunstância, exige contudo, que três outras condições se concretizem: vontade e acordo dos Serviços Oficiais, motivação e iniciativa por parte da Ordem dos Médicos Veterinários (naturalmente em consonância com outras associações representativas da profissão) e um esquema de informação/formação dos próprios Médicos Veterinários (para além do conhecimento, o entendimento e o consenso sobre a forma de abordar o assunto).

Para concluir e pegando na sua sugestão sobre o que noutros países se faz, aqui deixo a referência ao projecto “Blue Dog”, desenvolvido para educar/ensinar crianças e os seus pais na prevenção de mordeduras, tendo para tanto sido desenvolvido um CD interactivo e um guia para os pais.

O projecto é, tão somente, apoiado pela “Sociedade Europeia de Etologia Clínica Veterinária” (ESVCE), a “Federação Europeia das Associações Veterinárias de Animais de Companhia” (FECAVA), a “DogsTrust” (instituição inglesa sem fins lucrativos de protecção de cães), o “Grupo de Estudo de Terapia do Comportamento de Animais de Companhia (CABTSG - ligada à “Associação Britânica de Veterinários de Pequenos Animais” BSAVA) e o Centro de Atendimento Médico Veterinário Wylie

O principal doador do projecto é “apenas” a Real Associação Veterinária dos Países Baixos (KNMvD).
O suporte financeiro é ainda garantido pelos, não menos “simples”, Centro de Atendimento Médico Veterinário Holandês ADR, a “Associação Dinamarquesa de Etologia Clínica Veterinária” (DSKVE), a já referida “Associação Britânica de Veterinários de Pequenos Animais” (BSAVA) e o Grupo Norueguês de Comportamento (NAS).

Denominador comum: os Médicos Veterinários.

Sempre terminarei dizendo que se a Ordem não for capaz de catalisar o tema, tenho esperança que uma joint venture da Associação dos Médicos Veterinários Práticos de Animais de Companhia e uns quantos Centros de Atendimento Médico-Veterinário, consigam coligir os fundos necessários e desenvolver um projecto que teria certamente um impacto extraordinário pela avidez mediática de que o tema se reveste na Lusitânia.

5 comentários:

Anónimo disse...

Caro Clint
Totalmente de acordo.
A OMV deveria desencadear tal processo

Anónimo disse...

o Videira Golpes já tem um CD...



Agora é que vão ser elas o VGolpes com um CD e tudo...com estacionamento!!!


E o SS não tem nada ? e a Anadota (de Peniche)???e os da FMV o que têm???


JUíZO rapazes!!!

Anónimo disse...

Clint

Sensibiliza-me a citação do post que coloquei no seu blog, mas não parece sério retirar as frases do contexto e comentá-las.

De facto,quando são referidas estatísticas, como deve ter entendido, alude-se ao seu carácter secundário face aos outros problemas, esses não ligados à casuística, mas tão só à substância da questão (segurança das pessoas e civismo).

Dou-lhe também o beneficio da dúvida da interpretação errónea, porque suponho que especula com a tão lusitânica aversão aos números!
São ideias feitas que não correspondem à realidade para quem quer estar minimamente informado.
Diferente é colocá-los num "altar" qual dogma que nos obriga a todos.

Haverá certamente quem até aprecie a manipulação das estatísticas, contudo o suporte científico e sobretudo a seriedade e objectividade valem bastante mais que os números em si.

Quanto aos aspectos estritamente legais sempre lhe lembro que essa sim é uma desculpa comum neste cantinho à beira mar plantado.
A esse respeito o anterior Presidente da República, jurista respeitado, comentou sabiamente que "...no país as leis constituíam apenas sugestões...".

Compreende-se a sentença,
o que não quer dizer que as leis não sejam para cumprir, porque inversamente seria inútil todo o acervo legislativo e acessório o sistema judicial, no fundo todo como o esforço da organização social.

As desculpas de que há por estas bandas situações diferentes do resto da Europa talvez se relacione com a habitual ausência de rigor, exigência e até mesmo falta de profissionalismo ou seriedade.

A avaliação das condições psicológicas, sociais e afectivas têm de ser efectuadas por pessoas técnica e cientificamente preparadas, porque afirmar que tal não é possível corresponde ao tal espírito de demissão, desculpa mal amanhada, se quiser, um verdadeiro hino à irresponsabilidade .

Duvido também que qualquer associação privada consiga muito mais que reunir boas vontades, quando os membros estão por lá, enquanto querem,.

Este assunto é demasiado sério para que se apele apenas à consciência de uns , tem de ser assumido como problema maior em que desde logo a interdisciplinariedade é factor a decisivo e a disciplina de actuação exige autoridade, não podendo ficar apenas assente no civismo, mesmo que motivado profissionalmente.

A Ordem tem que tomar como prioritário este tema, como o do bem-estar, já que numa época de forte mediatização se apela à intervenção de entidades socialmente credíveis e capazes de responsabilizar os cidadãos, Estado e os profissionais.

Penso que se não o fizer os médicos veterinários terão de responsabilizar os dirigentes abstencionistas.


Kadete

Clint disse...

Obrigado pelo seu contributo.

Referir que veria com muito interesse a expressão de opiniões, como aqui fez, particularmente se discordantes da minha. Acho que só do confronto de ideias surge a evolução... neste particular temos muito para andar... todos nós, mas muito em particular os veterinários lusos.

Procurei não retirar do contexto os aspectos que comentei e por isso reproduzi na integra o seu comentário para melhor referência.

Não o vou contestar mas há “meia dúzia” de aspectos cuja contextura gostaria de repor.

As estatísticas.

Os americanos seguem-nas ritualmente e talvez por isso, volta não volta, enganam-se. É que as estatísticas não são menos importantes do que a forma como são obtidas. É de um autor americano, Darrell Huff, o best seller da estatística, “How to lie with statistics”. Aí se percebe facilmente como a “aldrabice estatística” nos entra casa dentro.

O problema que coloquei é que no caso de ataques por cães em Portugal não existe rigorosamente nada, nem sequer uma má estatística (notícias de jornal à parte). Mas pior... os Serviços Veterinários Oficiais não estão sequer para aí virados.

Mesmo admitindo a fragilidade dos meios, face às inúmeras atribuições, uma simples revisão dos circuitos burocráticos nos Serviços Veterinários Oficiais, seria capaz de promover um salto qualitativo extraordinário.

Afirmo sem dúvidas (e também com a certeza de não deter toda a verdade), que existe uma elevadíssima quantidade de Médicos Veterinários, nos Serviços Oficiais, competentes e motivados que estão desaproveitados, pela incompetência e ignorância de algumas chefias (posso-lhe dar “mil” exemplos).

O primado da Lei.

Inteiramente de acordo. Mesmo sem recordar ao que se referia o Presidente Sampaio, não poderei interpretar as palavras do mais alto dignitário do Estado como uma constatação de que o primado da Lei em Portugal é algo que não existe.

Mas concordará que, por isso mesmo, não vale a pena legislar na “perfeição” ou introduzindo articulados que se está mesmo a ver ninguém vai cumprir.

Apenas um exemplo, voltando ao contexto. A Lei obriga que todos os cães andem à trela ou açaimados... (à trela ainda se vão vendo... alguns). Viu alguém ser multado por isso? Repare que indirectamente estão a penalizar quem cumpre, o que me parece devastador.

Por isso sugiro que a Direcção-Geral de Veterinária só proponha leis que sejam exequíveis, quer no cumprimento, quer na sua fiscalização, mas sobretudo que tenham utilidade prática e sejam resposta a reais interesses da Sociedade.

Repare o seguinte: se a avaliação das condições psicológicas, sociais e afectivas pode e deve ser efectuada por pessoas técnica e cientificamente habilitadas, porque não o foi?

É que à luz da Lei, a avaliação psicológica, social e afectiva, é matéria do direito criminal e não de simples contra-ordenação. Quer dizer que cada caso (e serão às centenas) teria de tornar os Serviços Veterinários Oficiais uma extensão do Ministério Público (passo a caricatura) o que não é exequível.

As Leis não podem existir desenquadradas do contexto sociológico em que se aplicam. Por isso parece-me melhor uma lei “mais fraquinha” (passo e expressão) que possa evoluir para uma lei melhor, daqui por 5/10 anos, do que a adopção de uma lei muito boa, que depois “ninguém” cumpre. Esta última atitude considero sim “...um verdadeiro hino à irresponsabilidade”.

É que impor a exigência e o rigor é difícil e leva tempo, por isso só com doses de paciência e tempo... sem perder de vista o objectivo e o tempo em que será alcançado, claro!

O papel dos veterinários

Totalmente de acordo com o que disse: não bastam apelos à consciência... interdisciplinariedade (veja-se o caso do projecto Blue Dog)... a Ordem tem que dar prioridade ao tema... daí ter proposto em “O seu cão morde?” uma abordagem estratégica.

Concordo também que, caso contrário, “...os médicos veterinários terão de responsabilizar os dirigentes abstencionistas.”.

Anónimo disse...

Há uns que mordem nos cães